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Carvão mineral ganha destaque
10/01/2015




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Mais abundante dos combustíveis fósseis, o uso do carvão mineral ganha espaço na matriz brasileira, embora sua participação ainda seja restrita

Diante de uma crise que afeta as hidrelétricas, a energia termelétrica cresce na matriz

 

Por Aline Romero

 

Mais abundante dos combustíveis fósseis, o uso energético do carvão mineral ainda é restrito, representando apenas 2,4% da matriz elétrica brasileira, mas apresenta crescimento. Diante da crise hídrica enfrentada pelo setor energético – a qual se estende desde o final de 2012, quando houve uma redução nas chuvas –, o carvão volta a ganhar destaque através de novos leilões de energia.

 

Apresentando como desvantagem suas características poluentes, que levaram o setor a ser deixado de lado nos últimos anos enquanto fontes de energia menos agressivas ao ambiente foram priorizadas, as reservas de carvão correspondem a 42% dos recursos energéticos nacionais, segundo o BEN 2013 (Balanço Energético Nacional), publicado pela EPE (Empresa de Pesquisas Energéticas). As maiores reservas nacionais estão no Sul do País, principalmente no Rio Grande do Sul (com 28 bilhões de toneladas de carvão). Santa Catarina (3,3 bilhões de toneladas) e Paraná (104 milhões de toneladas) seguem nessa ordem.

 

Combustível fóssil natural, o carvão é extraído da terra através do processo de mineração. Encontrado em grandes profundidades ou perto da superfície e possui aparência preta ou marrom, lisa, macia e quebradiça. Existem quatro estágios na formação do carvão mineral: turfa, linhito, carvão (hulha) e antracito, os quais dependem de fatores como pressão e temperatura para sua formação.

 

Segundo o presidente da ABCM (Associação Brasileira de Carvão Mineral) Fernando Luiz Zancan, entre as vantagens do carvão estão sua variedade possível de usos. “O carvão nacional pode ser usado como fonte de energia para indústrias (calor e energia elétrica), pode ser usinado para fazer aço (siderurgia) e a mais importante é a geração de energia elétrica”, conta. Zancan destaca outras vantagens, como a disponibilidade, com reservas conhecidas de sete bilhões de toneladas, e o baixo custo de despacho. “O seu preço não sofre influências internacionais, portanto possui um preço estável e previsível para sociedade brasileira”, aponta.

 

De acordo com o BEN 2014, no ano passado a oferta interna de energia (total de energia demandada no país) atingiu 296,2 Mtep, o que registrou uma taxa de crescimento de 4,5% ante à evolução do PIB (Produto Interno Bruto) nacional de 2,3%. Gás natural, petróleo e derivados responderam por 80% deste incremento. A redução na oferta interna de hidroeletricidade teve um consequente aumento de geração térmica, como o carvão mineral.

 

Para o presidente do SNIEC (Sindicato Nacional da Indústria da Extração do Carvão), César Faria, o carvão mineral, por ser um recurso natural disponível é abundante, pode garantir a sua transformação em energia elétrica quando desejado pelo planejamento do sistema e do seu operador. “Exatamente por isso, o modelo da energia elétrica em vigor denomina-se ‘sistema hidrotérmico’ sendo as demais fontes renováveis – tais como eólica, solar e biomassa – complementares. As fontes térmicas carvão e gás são totalmente domináveis”, complementa.

 

De acordo com Zancan, a energia elétrica gerada a carvão representa 41% da geração de energia elétrica do mundo. Com fama de poluente, o setor vem, gradualmente, se aperfeiçoando nesse sentido. “Ao longo das últimas décadas, com o investimento em novas tecnologias, cada vez mais o carvão tem reduzido o impacto ambiental. Hoje, no Japão, por exemplo, a Usina de ISOGO tem emissões de poluentes controlados idênticas a uma usina de gás natural”, exemplifica. A mobilização também pode ser verificada no Brasil. “Neste momento, estamos investindo em tecnologias para captura de CO² – CCUS (Carbon Capture, Use and Storage, Captura, Uso e Armazenamento de Carbono). Aqui no Brasil, em Santa Catarina estamos implantando um centro de tecnologia de baixo carbono, desenvolvendo um projeto de 8 milhões de reais para o CCS (Carbon Capture and Storage)”, comenta.

 

O CCS ou CCUS tem como intenção evitar a liberação de grandes quantidades de gás carbônico na atmosfera, através de um processo de captura e armazenamento. Em 2013, o total de emissões antrópicas associadas à matriz energética brasileira atingiu 459 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. A economia brasileira permanece sendo, em média, 1,25 vezes menos intensa em carbono que a economia europeia, duas vezes menos do que a economia americana e quatro vezes menos do que a economia chinesa. Apesar do aumento da geração térmica, o setor elétrico brasileiro emitiu, em média, apenas 115 quilos de CO² para cada MWh produzido. Trata-se de um índice baixo quando se compara a outros setores, como o americano e o chinês, que emitem respectivamente 9 e 14 vezes mais.

 

Crise hídrica e elétrica

 

Atualmente, o setor elétrico brasileiro passa por uma fase delicada. O sistema atual de fornecimento de energia no Brasil é, essencialmente, constituído por hidrelétricas, e sua vulnerabilidade fica evidente em momentos como o atual, em que estiagens atípicas prejudicam o abastecimento das represas. Em 2001, o país viveu a maior crise do setor, período em que chegou a ser realizado um racionamento de energia, e planos de expansão da rede foram cogitados. Hoje, os reservatórios já apresentam números bastante similares aos da época do ‘apagão’.

 

Segundo o BEM 2014, pelo segundo ano consecutivo, devido às condições hidrológicas desfavoráveis, houve redução da oferta de energia hidráulica. Em 2013 o decréscimo foi de 5,4%. A menor oferta hídrica explica o recuo da participação de renováveis na matriz elétrica, de 84,5% em 2012 para 79,3% neste ano, apesar do incremento de 1.724 MW na potência instalada do parque hidrelétrico. O aumento do consumo final de eletricidade no país em 2013, de 3,6%, foi atendido justamente a partir da expansão da geração térmica, especialmente das usinas movidas a carvão mineral (que cresceram 75,7%), gás natural (+47,6%) e bagaço de cana (+19,2%), cujas participações na matriz elétrica, na comparação de 2013 contra 2012, cresceram de 1,6 para 2,6%, de 7,9 para 11,3%, e de 4,2 para 4,9%, respectivamente. O risco de uma crise elétrica traz de volta ao centro da discussão a necessidade de diversificar a matriz energética nacional. A redução da oferta de energia poderá afetar os indicadores econômicos e os consumidores – sejam eles indústria ou sociedade – já em 2015.

 

De acordo com o presidente da ABCM, Fernando Luiz Zancan, o carvão participa com 2,4% (3.205 MW) na capacidade instalada brasileira, sendo 1.765 MW de carvão nacional. “O papel das térmicas ficou evidente para a sociedade brasileira face ao fraco regime hidrológico dos últimos anos e a diminuição da capacidade de armazenamento de água nos reservatórios, isto é, o aumento da intermitência e dependência das condições climáticas”, diz. Zancan ainda defende que as térmicas a carvão tem o menor custo operacional de todas as térmicas. O presidente do SNIEC, César Faria, concorda. “O papel do carvão, nesse cenário, é o de aumentar a sua contribuição na oferta de energia dentro de um parque pré-existente”.

 

O carvão foi base da Revolução Industrial no século XIX e agora no século XXI torna-se o combustível que mais cresceu, segundo Zancan, devendo ultrapassar o petróleo como fonte energética ao longo desta década. “Uma nova revolução industrial, conduzida pela Ásia, está impulsionando várias economias e retirando centenas de milhões de pessoas da miséria. Países em desenvolvimento precisam de cimento, aço e energia e o carvão é vital para esses setores”, explica Zancan. Países exportadores, como a Austrália, Colômbia, África do Sul e Indonésia, se beneficiam de incremento de consumo de carvão em países como o Japão. “O carvão cresceu no ano passado 2,3 % e deverá continuar crescendo até 2019 na taxa de 2,1% ao ano”, prevê o presidente.

 

 

 


Publicado em: 10/01/2015